quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

hein?

Mangue Bangue, Hélio Oititica

hoje acordamos cedo
mas era tarde demais
ó rapaz, estúpido rapaz!

sem amanhã de manhã, menina
não haverá felicidade
só solidão, sem rima

antitética e paradoxalmente
como escrever de novo
no jornal de ontem

é essa insensatez
que ora nos faz
e amanhã nos fez

lambuzados de mel e fel
somos um moderno barroco
uma séria brincadeira

são tantos os versos a roubar
muitas as músicas a cantar
e no céu dor a espalhar

compondo essa descanção
com fatias de medo
e vinho muito azedo

reparto em tercetas estrofes
fujo à censura, amante da arte
um semi-plágio de ene funções

quadráticas, trigonométricas
sobrejetoras ou peripatéticas
vou atrás da vida pra poder morrer

perdido no limite da criação
batendo na mão o coração
amarro palavras monograficamente

monogratifico aquela história
numa morfosintaxe frouxa e inovadora
derretida numa panela de dendê

e parece não mais haver
maneira de um fim colocar
nesse dueto minueto

não é soneto, é cianeto
é um risoto ignoto
é um poético dom patético

2 comentários:

  1. o poeta abandonou seu ofício?

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  2. o poeta abandona seu ofício, mas o ofício não abandona o poeta.

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